A Semana da Consciência Negra está chegando no dia 20 de novembro! É a ocasião anual na qual reconhecemos a memória de nossos antepassados, reconhecendo-nos como descendentes de africanos no que tange à construção da sociedade brasileira.

Em Goiânia, a prefeitura local preparou uma comemoração especial, que se estenderá do dia 15 até o dia 22 de novembro, com lives virtuais sobre os mais variados temas – gênero e etnia, tipificação do racismo -, bem como rodas de conversa presenciais em escolas locais.

A presença dos negros na sociedade brasileira, bem como em seus maiores feitos, remota desde os primórdios do Brasil. O maior geógrafo brasileiro, Milton Santos, por exemplo, é negro. Artistas de renome como Lázaro Ramos, músicos respeitados como Cartola, em todas as áreas possíveis temos um negro excelso em relação aos demais trabalhadores do ramo.

Na Literatura, não seria diferente. O Grito preparou uma coletânea de escritores negros para contemplarmos com sabedoria. Veja abaixo.

CRUZ E SOUSA

Poeta simbolista brasileiro, Cruz e Sousa era filho de escravos. Seu trabalho foi magnífico ao capturar o contraste entre amor e ódio, pureza e paixão. Foi o maior negro de raça pura da literatura brasileira. Em uma sociedade retrógrada, na qual fora recusado o cargo de Promotor por ser negro, Cruz e Sousa encontrou refúgio em suas obras literárias, que capturam o profundo sentimento de angústia e reestabelecimento do ser humano. Veja um de seus poemas:

A Ironia dos Vermes

Eu imagino que és uma princesa
Morta na flor da castidade branca…
Que teu cortejo sepulcral arranca
Por tanta pompa espasmos de surpresa.

Que tu vais por um coche conduzida,
Por esquadrões flamívomos guardada,
Como carnal e virgem madrugada,
Bela das belas, sem mais sol, sem vida.

Que da Corte os luzidos Dignitários
Com seus aspectos marciais, bizarros,
Seguem-te após nos fagulhantes, carros
E a excelsa cauda dos cortejos vários.

Que a tropa toda forma nos caminhos
Por onde irás passar indiferente;
Que há no semblante vão de toda a gente
Curiosidades que parecem vinhos.

Que os potentes canhões roucos atroam
O espaço claro de uma tarde suave,
E que tu vais, Lírio dos lírios e ave
Do Amor, por entre os sons que te coroam.

Que nas flores, nas sedas, nos veludos,
E nos cristais do féretro radiante
Nos damascos do Oriente, na faiscante
Onda de tudo há longos prantos mudos.

Que do silêncio azul da imensidade,
Do perdão infinito dos Espaços
Tudo te dá os beijos e os abraços
Do seu adeus a tua Majestade.

Que de todas as coisas como Verbo
De saudades sem termo e de amargura,
Sai um adeus a tua formosura,
Num desolado sentimento acerbo

Que o teu corpo de luz, teu corpo amado,
Envolto em finas e cheirosas vestes,
Sob o carinho das Mansões celestes
Ficará pela Morte encarcerado.

Que o teu séquito é tal, tal a coorte,
Tal o sol dos brasões, por toda a parte,
Que em vez da horrenda Morte suplantar-te
Crê-se que és tu que suplantaste a Morte.

Mas dos faustos mortais a regia trompa,
Os grandes ouropéis, a real Quermesse,
Ah! tudo, tudo proclamar parece
Que hás de afinal apodrecer com pompa.

Como que foram feitos de luxúria
E gozo ideal teus funerais luxuosos
Para que os vermes, pouco escrupulosos,
Não te devorem com plebéia fúria.

Para que eles ao menos vendo as belas
Magnificências do teu corpo exausto
Mordam-te com cuidados e cautelas
Para o teu corpo apodrecer com fausto.

Para que possa apodrecer nas frias
Geleiras sepulcrais d’esquecimentos,
Nos mais augustos apodrecimentos,
Entre constelações e pedrarias.

Mas ah! quanta ironia atroz, funérea,
Imaginária e cândida Princesa:
És igual a uma simples camponesa
Nos apodrecimentos da Matéria!

ALEXANDRE DUMAS

Simplesmente o autor de um dos maiores sucessos da história, “Os Três Mosqueteiros”. Alexandre Dumas era francês, e ainda que tenha tido considerável sucesso e reconhecimento em vida, ainda assim tinha que passar pelas mazelas do racismo. Muito famosa é sua resposta a um crítico racista contemporâneo: “Meu avô era negro e meu tataravô era um macaco. Entende agora, senhor? Minha família começou onde a sua termina”. Sua contribuição foi simplesmente imensa, mas sua principal obra foi os Três Mosqueteiros, obra até hoje lida em escolas e por adultos.

O Grito do Livro deseja uma boa semana da Consciência Negra para todos!

Produzido por Cristiano Urquiza